Entrevista com Mariana Moreira (Secretaria Estadual de Cultura RJ ) na ocasião da seleção do filme SuperRio Superficções para a Bienal da imagem em movimento de Genebra.

15 de Julho de 2016

Você é suíço-brasileiro, certo? Como é a sua relação do Brasil? Como surgiu a idea de fazer o SuperRio Superfictions?

 

Nasci na suíça de pai suíço e de mãe brasileira mas sempre vinha ao Rio para visitar a família. Muitos dos temas  explorados no SuperRio tem a ver com a minha vivencia na cidade. Passei minha infância e adolescência navegando entre mundos com valores morais dicotômicos:  evangélicos radicais da baixada fluminense, uma burguesia decadente muito conservadora e elitista da zona sul, e universitários esquerdistas. Esses mundos se ignoravam e desprezavam, ambos viviam enclausurados em suas dimensões com fronteiras bem definidas, eu sempre queria ver o que tinha além dessas muralhas.

O projeto SuperRio Superficções nasceu em 2005, da minha tese de mestrado em arquitetura pela faculdade de Bruxelas. O tema da tese era a ficção como modo de construção e de relação com o território, ganhei uma bolsa para vir pesquisar o tema no Rio de Janeiro. Antes de viajar comecei a juntar vídeos institucionais,  recortes de jornal, programas de tv, e a me reconectar com minhas lembranças.  Durante os meses da pesquisa morei em diversas partes da cidade, com familiares e amigos em Guaratiba, na Maré, Nilópolis e Ipanema, analisando  as diferenças de idiossincrasias num mesmo território físico e confrontando as com minha própria visão caleidoscópica, que também era uma ficção. Foi desse emaranhado de realidades e ficções que nasceu o SuperRio, e foi  nessa época que escrevi o texto que serve de base pro filme.

Quando vim morar no Rio de Janeiro em 2013 percebi que todas as questões exploradas estavam mais exacerbadas ainda, e senti  a necessidade de retomar o projeto e realizar o filme.

 

E por que realizá-lo como audiovisual? Você também utiliza outras plataformas?

 

O audiovisual é o meio principal do meu trabalho artístico. No caso do SuperRio  o filme é parte de um projeto de pesquisa mais abrangente.

O filme é constituído, fora as partes de apresentação e animação, exclusivamente de imagens de arquivo institucionais, de noticiários e filmagens documentárias, todos são fragmentos de realidade que, justapostos, fazem emergir a superficção, o SuperRio. Se fosse levar esse tipo de discurso numa tese escrita por exemplo, se tornaria algo muito mais pesado, e abrangeria um leque muito menor de pessoas.

Os canais de percepção já estão abertos para esse tipo de linguagem oriundo das mídias de massa, ele se comunica diretamente com o inconsciente coletivo, cada imagem já tem uma alta carga simbólica, já vem acarretando consigo muitos significados, assim as associações de imagens se tornam mais contundentes.

O SuperRio é um projeto hibrido de arquitetura, artes visuais, sociologia, antropologia, mídia e design. Além do filme, o projeto também conta com cartazes e uma publicação de grande formato, em construção, que estou concebendo como um misto de tabloide sensacionalista, revista cientifica e atlas geopolítico. A mídia escrita permite aprofundar mais os personagens e lugares envolvidos, analisando  as Superficções de forma mais profunda. Outro intuito para o projeto é criar um espaço itinerante, similar à um estande de vendas de uma promotora imobiliária, onde seja apresentado o filme, os cartazes, e distribuída a revista.

 

O filme usa muitos recursos e efeitos e cores, além da narração. Por que tais elementos foram escolhidos?  

 

A televisão e a imprensa escrita desenvolveram uma estética e  linguagem gráfica repleta de efeitos que envolve qualquer narrativa numa aura de verdade cientifica criando uma hiperrealidade mitológica, colorida e sedutora.

O projeto utiliza esses recursos de forma exacerbada dando ao todo um ar de ficção cientifica, o filme assimila o processo de hipnotismo das mídias de massa, usando dos mesmos artefatos mas agregando a eles outro significado.

 O  filme leva essa estética à saturação, numa linguagem que é ao mesmo tempo familiar porém pela intensidade e associações de imagens cria um incomodo.

 

 

Você criou uma supercidade manipulada a partir de uma estrutura que permeia o inconsciente dos habitantes, o supercarioca, numa clara crítica à imprensa. Inclusive, o modelo narrativo do vídeo se assemelha a um programa de notícias ou a qualquer outro do tipo de informativo ou didático. Como você avalia a atuação da imprensa na cobertura dos fatos que acontecem na cidade? Algum fato te motivou especificamente para ratificar essa crítica?
 

A imprensa escrita e audiovisual (as supermídias)  cria uma narrativa bem definida para a cidade e a sociedade, uma realidade paralela, muito bem elaborada que vai sempre se aperfeiçoando, onde os acontecimentos são meros panos de fundo para enredos já definidos. É como se todo o conteúdo audiovisual se fundisse numa novela eterna onde cada um já tem seu papel: o pobre fazendo papel de pobre, o rico de rico, o criminoso agindo como tal e etc. cada um com sua estética, musica especifica, tom de voz, a maneira de ser filmado. Todos os jogos de força e complexidade por trás dos acontecimentos se encontram borrado atrás de factoides pulverizados, enquanto nunca se trata de questões ao meu ver essenciais como os fundamentos escravocratas da organização da sociedade e do território, a superescravidão, constantemente reproduzida pela supermídia como se fosse supernormal.

 

 

Além da imprensa, você também faz uma crítica ao uso da tecnologia e das redes sociais mal utilizadas para disseminar mentiras e discursos do ódio. Você acha que essas ferramentas são subutilizadas?
 

Quando escrevi o texto, as redes sociais ainda não existiam, mas o trabalho já dava uma importância muito grande aos rumores, boatos e lendas urbanas como forma de se propagarem informações, as visões que têm as pessoas uns dos outros, como os fatos vão se distorcendo, e como esses rumores vão se retroalimentando num constante vaivém com as mídias de massa.

A aparição das redes sociais cristaliza esses pensamentos, que eram algo fundamentalmente oral. Essa materialização faz com que esses pensamentos abranjam  muito mais pessoas, que cada um tenha sua própria mídia.

 Isso tem lado muito positivo principalmente num país como o Brasil onde as mídias de massa são tão hegemônicas e unilaterais, tanto que as redes sociais tem um papel fundamento nos movimentos e lutas sociais.

Por outro lado há a  confusão de opinião com noticia de todas as informações acabam ficando no mesmo nível, dando espaço para discursos do ódio que sem elas ficariam restritas a círculos menores. Principalmente se não há educação para decifrar o conteúdo e usar as mídias, a pesquisar, cria-se uma nebulosidade e uma confusão maior ainda.

No projeto não se trata de fazer uma critica às redes sociais em si, mas de observar o papel que elas desempenham como camada nebulosa na percepção ou até substituição  da realidade, e tal como as mídias de massa contribuem para a desinformação e entrincheiramento da sociedade.

 

 

 Você, no geral, faz uma crítica também à desigualdade social entre supericos e superpobres, à política, ao processo de favelização e à relação entre religião e política. Reunidas, estas críticas são o centro do modelo de cidade em constante desenvolvimento no Rio desde o início do século XX, e que se acelerou nos últimos anos com o governo do Prefeito Eduardo Paes. A partir deste olhar, como você definiria o seu trabalho?

 

 

Hoje em dia é um processo muito comum de tratar uma cidade como uma marca, um produto a ser vendido, com a ajuda de estratégias marketing. No caso do Rio isso toma outra dimensão, tudo é ampliado, mas ainda com a organização dos supereventos. Não é só o território, mas também os próprios habitantes, sua índole, sua sexualidade e suas tradições, um modo de vida que é estilizado de forma edulcorada e tratado como mercadoria. Isso se traduz entre outros na criação de corredores de isolação, de enclaves, e nas politicas de deportação, remoção e de transportes públicos.

No projeto SuperRio se trata, mais de que uma critica, de entender esse ecossistema, sem olhar moralizador, deixando o máximo os fatos falarem por si,

de ver como essas diferentes forças dialogam, que não constituem aspectos isolados mas que estão todas interligados. Dentro de cada categoria há outras milhões de gavetas a serem abertas, de dar uma medida dessa infinita complexidade, não se trata de uma visão binária de bom e ruim. Por exemplo o Superdeus, é uma dimensão muito complexa, com guerras intestinas, muitas diferenças morais entre congregações, cada uma com suas estratégias de conquista do território. Supersuperior não é apenas a civilização da zona sul se sentindo superior às outras, é como uma cachoeira onde cada um se sente superior à outra coisa, todos são supersuperiores de alguém. Os superestrangeiros podem ser as pessoas de outra zona, de outra classe, mas também os do outro lado da linha férrea ou os seus vizinhos, e por aí vai.

A ideia da revista é poder entrar mais nesses detalhes,  esboçando todos os aspectos que participam a sua construção, econômica, emocional, social e religiosa desse ser vivo de complexidade infinita, enquanto o filme dá um apanhado mais global da cosmogonia supercarioca.

 

 

Quais são próximos passos agora que o seu trabalho foi selecionado? Quando sairá o resultado? O que você espera desta seleção BIM GENERATIONS, Centre d'Art Contemporain de Genebra?

 

Nessa ultima fase o filme estará concorrendo com outros 9 do mundo todo para ganhar uma bolsa de produção para um novo projeto e participar da bienal de 2018 com esse novo projeto, a seleção se dará em Novembro.

Fico muito feliz do projeto poder circular pelo mundo afora. O SuperRio, pelo seu formato e linguagem, um programa de TV acompanhado de uma revista de formato sensacionalista, é concebido como uma mídia de massa. O objetivo agora é que ele circule nos mais diferentes lugares, tanto em espaços institucionais quanto em praças, escolas, que provoque debate e se expanda em outros capítulos, em outras cidades no Brasil e no mundo. O SuperRio é parte de um projeto sem fim de atlas caleidoscópico mundial, e estou muito ansioso para levá-lo adiante.