[ Matéria originalmente publicada na revista ArteBrasileiros #49, Dezembro 2019 ]

A realidade escancarada na ficção de

Guerreiro do Divino Amor

Vencedor do Prêmio Pipa 2019, artista desenvolve há cerca de 15 anos a série Superficções, através da qual trata de questões sociais e simbólicas profundas, desde a manipulação midiática ao colonialismo, da segregação social ao poder das igrejas neopentecostais, da violência de Estado ao poder do marketing e do mercado

 

Por Marcos Grinspum Ferraz

-16 de dezembro de 2019

 

As Superficções concebidas por Guerreiro do Divino Amor poderiam também ser chamadas, segundo ele mesmo, de hiper-realistas, neorrealistas ou documentários. Pois através delas, na série de trabalhos intitulada Atlas Superficcional Mundial, o artista de 36 anos, nascido na Suíça e radicado no Rio, trás à tona algumas das temáticas mais profundas e complexas de nossa sociedade, tanto geopolíticas quanto referentes ao imaginário coletivo. Assuntos atuais – e nada ficcionais – como a atuação dos poderes políticos, religiosos, midiáticos e do marketing, as desigualdades sociais, a violência do Estado e as estratégias de embranquecimento da população.

Em vídeos que se desdobram em painéis, revistas e outros suportes, Guerreiro apresenta os universos superficcionais de cada cidade ou região em que trabalha, sob uma perspectiva apocalíptica e a constatação de que vivemos em guerra. De 2005 para cá já foram imersões em Bruxelas, Rio, São Paulo, MG e Brasília. O artista não teme “dar nome aos bois” quando estampa nos vídeos, “como totens”, rostos de figuras poderosas como Silvio Santos, Doria, Bonner, Eduardo Cunha, Malafaia e o pastor Davi Miranda. Chegou a ser processado pela filha deste último, mas absolvido “em uma sentença inclusive muito bonita. Um alívio, porque hoje em dia não se sabe o que esperar da justiça”.

Com uma estética bastante peculiar, de cores fortes e referências ao universo da internet, o artista questiona as ideias de bom gosto e os padrões visuais hegemônicos, por vezes de modo debochado e irônico. Formado em arquitetura em Bruxelas, ele conta que achava a forma de apresentação usual dos projetos, tudo meio cinza e neutro, “uma cafonice”. Preferiu retomar suas referências de infância e adolescência, de novelas e videoclipes a programas da Xuxa – “acho que o pop mexe mais com o coração, tem esse impacto direto e mais abrangente” –, e aprofundar “a pesquisa da estética como ficção, ao observar como cada segmento social cria uma estética ficcional que carrega consigo códigos bem definidos”.

 

Seu Atlas deve ganhar agora episódios na Suíça, “que tem essa narrativa superficcional de perfeição”, na Itália, “à procura das raízes do cristianismo e do fascismo, muito importantes para entender São Paulo e o Sul do Brasil”, e no México. Guerreiro foi o vencedor, este ano, do Prêmio Pipa, um dos mais importantes das artes visuais no país, e concedeu entrevista à ARTE!Brasileiros

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ARTE!Brasileiros – Para começar, queria te perguntar de onde vem esse nome, Guerreiro do Divino Amor, e o que ele significa para você.

Guerreiro do Divino Amor — Guerreiro é meu sobrenome mesmo. Já Divino Amor foi uma brincadeira que surgiu quando eu era adolescente e meu pai namorava uma pastora. Ela queria me colocar para dentro da igreja, e foi um pouco uma provocação, eu queria montar uma banda de heavy metal para atuar na igreja. Nunca aconteceu, mas gostei muito do nome, Guerreiro do Divino Amor. Depois foi ganhando muitos significados ligados ao meu trabalho e à vida, até que hoje ele representa como que minha missão de vida.

Nunca conseguiram te cooptar para a igreja?

Não. Na verdade eu fiquei muito curioso com aquele universo, neopentecostal, que eu não conhecia bem. Foi um dos motores do meu trabalho, tentar entender aquela fé arrebatadora e ao mesmo tempo com uma estética muito forte, colorida. Era envolvente.

Me parece que várias dessas suas vivências e experiências de vida estão muito presentes no seu trabalho. Você já falou de outra parte da família que vem de uma aristocracia decadente, além de sua formação na Europa…

Sim, acho que foi um motor. Morava na Europa, num contexto onde todos eram relativamente misturados, e volta e meia frequentava a família no Brasil, uma gente profundamente racista, muito fúteis, mas com certo verniz culto, uma obsessão por poder, hierarquia e status e a certeza de saber que tudo e todos estão em seu devido lugar. Queria entender quais eram os mecanismos de perpetuação dessa casta que continuava vivendo na época do Brasil colônia sem ser perturbada. E também desse mundo evangélico. São mundos fechados em si, com respostas para tudo. Comecei a analisar, a cavar, e foi aparecendo como um buraco sem fundo com raízes muito antigas e profundas, lógicas de dominação complexas e perversas. O trabalho é todo de desemaranhar essas estruturas, que por serem tão antigas e familiares formam como um ecossistema, uma coisa dada, atemporal. E ver o papel das mídias, da família, das genealogias, da herança, do capital simbólico nessa manutenção. O SuperRio, segundo capítulo do Atlas, é um retrato mais direto dessa tentativa de entender o que se encontrava ao meu redor e a relação com fenômenos mais globais de marketing, lógicas corporativas, e como isso influi na mente, na forma de agir das pessoas, quais são suas estratégias e como isso se traduz em todas as escalas, da individual à geopolítica. Depois fui explorando outros fenômenos adjacentes. Assim começou, ao tentar entender esses universos e os cruzamentos entre eles, e até hoje trabalho essas questões.

E como é que essas Superficções, esses capítulos, se relacionam entre si, neste grande Atlas Mundial?

No começo cada projeto tinha sua independência, explorava temáticas próprias. Só depois é que eu fui entender isso como um Atlas. São capítulos que vão se relacionando, com questões que atravessam o trabalho todo, como as ideias de império e galáxia, a guerra entre civilizações em suas diferentes facetas sociais, religiosas, econômicas, simbólicas, estéticas, as diferentes estratégias de embranquecimento da população. No primeiro capítulo, em Bruxelas, era uma coisa mais estritamente analítica. É uma cidade bastante pobre e suja para os padrões da Europa, mas com uma tentativa de se construir como cenário de cidade mundial, capital da Europa. E eu, quando estudava arquitetura, comecei a perceber muito um discurso bélico, de conquista das mentes e do espaço. Essa ideia atravessa todo o trabalho, de modos diferentes. E a ideia de superficção mesmo veio no trabalho seguinte, no Rio, que eu escrevi em 2005 e retomei em 2013, no período pré-Copa e Olimpíadas, o ápice de superficção carioca. Muitas vezes, nos meus vídeos, eu parto de filmes turísticos, propagandas, que é como a cidade quer se vender, qual ficção ela vai criar para se exportar, essa criação da imagem.

Mas você parte do que a cidade quer mostrar para expor o que a cidade não quer mostrar…

É, como são construções muito bem elaboradas e antigas procuro identificar as raízes simbólicas e históricas e as suas diferentes manifestações, de como essas ficções acabam sendo incorporadas no imaginário coletivo da cidade, e como elas agem e são instrumentalizadas nas diferentes guerras pelo poder. No caso de Minas isso também é muito forte. Minas é um pouco a “fofura encarnada”. Ninguém vai falar mal de MG, que tem aquela comida, um ideal de hospitalidade. Mas fora isso é um lugar de poder, de dinheiro, é um dos poucos estados que não tem Dia da Consciência Negra, apesar de seu passado, é tudo muito velado.

 

Nas superficções você trabalha com vários planos e camadas de poder que caracterizam as sociedades como política, religião, mídia, polícia, mercado. Como escolhe estes temas trabalhados?

É bem natural, chegando nos lugares e observando, sentindo, conversando. Claro que todas estas camadas estão presentes em todos os lugares, mas em cada um elas agem de uma forma diferente, com outras narrativas. Por exemplo, a religião funciona de modos distintos em cada lugar, até com construções físicas muito distintas e com estilos de pregação diferentes. Mas, no fundo, com a mesma vontade de conquista. No caso da mídia também. No Rio, por exemplo, tem uma construção midiática muito forte através tanto das novelas quanto dos noticiários policiais, criando essa narrativa esquizofrênica, representada pela rosa dos ventos no SuperRio. Em MG você vê sempre uma narrativa de uma “volta para a terra”, uma imagem mais rural, uma ideia mais de pureza, e isso é exaltado na mídia.

E seu trabalho está sempre questionando essas narrativas oficiais, trazendo coisas ocultas.

Sim, a ficção da democracia racial, por exemplo, que em cada lugar é narrada de um jeito. E é uma das ficções centrais da construção do Brasil, que serve ao apaziguamento, à exploração. Essa negação do passado escravagista. Falando de Minas de novo, que é o que está mais fresco para mim, tem toda essa instrumentalização do mito de Chica da Silva. Em todo lugar que você vai tem essa narrativa que diz “olha, tem a Chica da Silva, escrava rica, linda”. E aí parece que está tudo certo. A coisa fica mais sútil, mas talvez por isso mesmo mais perversa. Com essa camada de mel, de glacê doce.

Para além de tratar de cidades reais, surgem também muitas figuras reais. Como é que escolhe esses personagens e como eles se inserem nos trabalhos?

São ícones né? São como totens. Por exemplo, Silvio Santos, a vida dele, a trajetória dele, é como um totem de São Paulo. É a encarnação do mito da meritocracia. E trabalhando no photoshop vi que ele e João Doria tem traços muito parecidos. Então no trabalho eles se juntam, como se fossem um só. Se complementam. Porque Doria também é como uma caricatura, um arquétipo do herdeiro, do capitalismo selvagem. Você vê essas figuras e já sabe do que se trata, elas já trazem todo um universo junto. E não são fenômenos abstratos. São pessoas que estão lá agindo, um exército. Claro que têm muitas outras, é muito mais complexo que isso. 

Você disse certa vez que seu trabalho procura lidar com a complexidade do apocalipse. Também disse que o trabalho todo trata de guerra, em diferentes planos. Enfim, estamos no apocalipse? Estamos em guerra?

Existe essa percepção de que há um apocalipse, em todos os níveis, na questão dos recursos naturais por exemplo. E o trabalho tenta ver esses detalhes, como isso é uma construção, é uma guerra que vem de muito longe. No trabalho de Brasília, por exemplo, fui vendo esses ciclos, como na inauguração de Brasília reencenaram a primeira missa do Brasil, da época da conquista. É um apocalipse que vem se preparando há muitos séculos, mas agora é como se fosse o momento apoteótico, que veio para valer. E trabalhar com isso, mexer nessas coisas às vezes é assustador. Foi ficando mais nítido no decorrer dos capítulos, tendo seu ápice em Brasília, onde a pesquisa foi feita na época das eleições de 2018. Parece que os senhores escravocratas conseguiram a fórmula perfeita. A junção da força da fé com o marketing emocional e as tecnologias da informação é arrebatadora.

Ao mesmo tempo em que temos esse quadro apocalíptico, o meio artístico tem dado reconhecimento para trabalhos que lidam com questões raciais, indígenas, de gênero etc. Você acaba de ganhar o Pipa, por exemplo. É uma resistência ao apocalipse?

Acho que talvez o mundo das artes tenha despertado mais agora também porque as coisas começaram a atingir uma “branquitude” que estava tranquila, protegida, presa num romantismo. Mas tem gente que já estava acostumada com a perseguição, que tem sabedoria do que é estar em guerra. E acho que as artes agora talvez se voltem mais para estes, os que já sabem do que se trata. Quando há necessidade, tudo se aprende mais rápido.